Luto por alguém que vive

Podemos olhar (visualmente) para a trajetória de vida como se fosse uma montanha. Quando se nasce, há todo um "mundo pela frente". A partir daquele momento há um grande exponencial de aprendizagem. Uma linha ascendente que vai até um cume. A partir de determinado momento (desse cume), essa linha não sobe mais e segue o "movimento contrário", começando assim uma orientação descendente.
Quanto mais a pique for essa inclinação (descendente), normalmente, mais medo se tem. Quem observa esse percurso, não sabe que caminho o outro irá percorrer, que obstáculos encontrará ou como será o momento em que termina a montanha.
Quem está a observar pode sentir uma grande angústia e sofrimento diante da incerteza e da falta de controle sobre a situação, pois não sabe por quanto tempo o outro estará a sofrer, não sabe a intensidade desse sofrimento, nem o que irá acontecer a seguir.
Esse sofrimento e angústia pode provocar nesse espectador alguns desejos escondidos e que acabam por ser contraditórios ("preocupo-me como é que a outra pessoa está a (sobre)viver; só queria o bem dela, mas não consigo ver outra solução a não ser que esse sofrimento termine de uma vez por todas"
Será que esse desejo ofegante de pôr um fim ao sofrimento é dirigido a quem está a descer a montanha ou espelha antes a vontade de quem está a observar ver mais rapidamente o final de todo o percurso (pois acredita que assim está menos tempo a sofrer)?
O observador está a passar por um processo emocional ao testemunhar o sofrimento do outro. Portanto, é como se o término de todo aquele percurso provocasse, no observador, a sensação de segurança e paz.
Cátia Soreira, Psicóloga Clínica, Cédula Profissional O.P.P 25484